Os miomas uterinos estão entre as doenças ginecológicas mais frequentes na mulher em idade reprodutiva. Embora sejam tumores benignos, podem provocar sangramento intenso, dores, infertilidade e comprometer significativamente a qualidade de vida. A boa notícia é que a medicina oferece hoje diversos tratamentos, muitos deles capazes de preservar o útero e a fertilidade.
Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), aproximadamente metade dos casos permanece assintomática, descoberta durante exames de rotina. Entenda como os miomas surgem, quais sinais merecem atenção e quando é necessário buscar ajuda e evitar complicações.
O que são os miomas uterinos
Os miomas uterinos, também chamados de leiomiomas, são tumores benignos originados das células musculares do útero (miométrio). Na imensa maioria dos casos, nunca se transformam em uma doença maligna.
Podem surgir isoladamente ou em grande quantidade e variar desde poucos milímetros até massas que aumentam significativamente o volume do útero. Eles são classificados de acordo com a localização:
· Submucosos:
crescem para dentro da cavidade uterina.
· Intramurais:
localizam-se na parede muscular do útero.
· Subserosos:
crescem para a parte externa do útero.
Essa localização influencia diretamente os sintomas, o impacto sobre a fertilidade e o tratamento indicado.
O que causa os miomas
Ainda não existe uma causa única conhecida. Atualmente, sabe-se que os miomas resultam da interação entre fatores genéticos, hormonais e ambientais. Os principais fatores envolvidos são:
· Predisposição genética;
· Ação dos hormônios estrogênio e progesterona;
· Alterações em genes relacionados ao crescimento celular, especialmente o gene MED12, presente em grande parte dos miomas estudados;
·
Fatores inflamatórios e alterações da matriz extracelular do útero.
Os miomas costumam crescer durante a fase reprodutiva, quando há maior produção hormonal, e tendem a diminuir após a menopausa.
Fatores de risco para desenvolver miomas
Algumas mulheres apresentam maior probabilidade de desenvolver miomas. Entre os fatores de risco mais conhecidos estão:
· Histórico familiar;
· Primeira menstruação muito precoce;
· Obesidade;
· Nunca ter engravidado;
· Maior exposição ao estrogênio durante a vida reprodutiva.
Diversos estudos também mostram maior incidência em mulheres negras, nas quais os miomas costumam aparecer mais cedo, crescer mais rapidamente e provocar sintomas mais intensos.
Faixa etária mais afetada
Os miomas são raros antes da puberdade. Seu aparecimento aumenta progressivamente entre os 30 e 50 anos, atingindo maior frequência na faixa dos 40 anos. Após a menopausa, devido à redução hormonal, normalmente diminuem de tamanho e tornam-se menos sintomáticos.
Principais sintomas causados pelos miomas
Nem toda mulher com miomas apresenta sintomas. Quando isso acontece, depende principalmente do tamanho, quantidade e localização dos miomas. Nesses casos, os principais são:
·
Menstruação intensa ou prolongada;
·
Sangramentos fora do período menstrual;
·
Cólicas fortes;
·
Dor pélvica persistente;
·
Sensação de peso na parte inferior do abdomen;
·
Aumento inexplicável do volume abdominal;
·
Vontade frequente de fazer xixi;
·
Prisão de ventre ou sistemas intestinais persistentes;
·
Dor durante as relações sexuais;
·
Anemia causada pela perda excessiva de sangue;
·
Dificuldade para engravidar.
Diagnóstico dos miomas
Na maioria das vezes, o diagnóstico começa durante a consulta ginecológica. Após a avaliação clínica, podem ser solicitados exames como:
Ultrassonografia transvaginal
- É o principal exame para identificar os miomas. Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, apresenta sensibilidade entre 95% e 100%, sendo considerado o exame inicial de escolha.)
Ultrassonografia abdominal
- Pode complementar a avaliação quando o útero apresenta grandes dimensões.
Ressonância magnética
- Indicada em casos selecionados, especialmente quando existem múltiplos miomas ou planejamento cirúrgico.
Histeroscopia
- Permite visualizar diretamente a cavidade uterina e avaliar especialmente os miomas submucosos.
Mioma X fertilidade
Os miomas que deformam a cavidade uterina — principalmente os submucosos — podem dificultar a implantação do embrião, aumentar o risco de abortamento e reduzir as taxas de sucesso da fertilização. Já muitos miomas pequenos e localizados na parte externa do útero não interferem na fertilidade.
Uma importante revisão publicada por pesquisadores da Mayo Clinic (Estados Unidos) mostrou que a influência dos miomas sobre a fertilidade depende principalmente da localização do tumor, e não apenas do seu tamanho. Os autores observaram que os miomas submucosos apresentam maior impacto negativo na implantação embrionária e na evolução da gestação, enquanto muitos miomas intramurais pequenos podem ser apenas acompanhados clinicamente. Por isso, cada caso deve ser avaliado individualmente.
Miomas durante a gravidez
A maioria das mulheres com miomas consegue engravidar. Entretanto, dependendo da localização e do volume, podem ocorrer algumas complicações, como:
·
Abortamento;
·
Dor intensa pelo crescimento ou degeneração do mioma;
·
Parto prematuro;
Segundo o Ministério da Saúde, embora essas complicações possam ocorrer, grande parte das gestantes com miomas evolui bem quando recebe acompanhamento obstétrico adequado.
Impactos dos miomas na saúde da mulher
Além dos sintomas físicos, os miomas podem afetar profundamente a qualidade de vida. Uma ampla revisão publicada em 2024 destacou que os sintomas relacionados aos miomas comprometem significativamente o bem-estar físico, psicológico e social das pacientes, reforçando a importância do diagnóstico precoce e do tratamento individualizado. Nesse sentido, os miomas podem provocar:
·
Alterações na vida sexual;
· Impacto emocional;
·
Limitação das atividades físicas;
·
Dores crônicas;
·
Dificuldade para engravidar.
Tratamentos mais indicados
Nem todo mioma precisa ser tratado. Quando não provoca sintomas e apresenta crescimento estável, geralmente basta acompanhamento periódico. Nos casos sintomáticos, entretanto, existem diversas opções:
Medicamentoso
- O tratamento pode incluir medicamentos hormonais ou outras terapias destinadas a reduzir o sangramento e controlar os sintomas. Nesse caso, não elimina o mioma, mas pode melhorar significativamente a qualidade de vida.
Miomectomia
-É a cirurgia que retira apenas os miomas, preservando o útero. Costuma ser indicada para mulheres que desejam engravidar futuramente.
Embolização das artérias uterinas
- Procedimento minimamente invasivo realizado por radiologia intervencionista, que reduz a irrigação sanguínea dos miomas e promove sua redução.
Ultrassom focalizado de alta intensidade (HIFU)
- Disponível em centros especializados para casos selecionados, utiliza ondas de ultrassom para destruir o tecido do mioma sem necessidade de cirurgia aberta.
Histerectomia
- Consiste na retirada do útero e representa o tratamento definitivo para mulheres que não desejam mais engravidar e apresentam sintomas importantes.
A escolha depende de fatores como idade, intensidade dos sintomas, tamanho dos miomas, desejo reprodutivo e condições clínicas da paciente.
Prevenção dos miomas
Não existe uma forma comprovada de impedir completamente o aparecimento dos miomas. Entretanto, alguns hábitos estão associados à manutenção da saúde ginecológica:
· Manter peso adequado;
· Praticar atividade física regularmente;
· Controlar pressão arterial;
·
Realizar consultas ginecológicas periódicas;
·
Investigar alterações menstruais precocemente;